sobre ir a china
May 13th, 2013Já tinha desistido da China quando comecei minha viagem: não tinha dado tempo de tirar o visto no Brasil, fazer isso em outro país parecia um trampo penoso e, no fundo, não estava lá muito certa de que queria mesmo ir para lá.
Sempre detestei multidão. Não gosto, fico de mau humor, beiro o pânico quando sinto algum aperto. Situações que todo mundo costuma tirar de letra – um metrô meio apertadinho em dia de jogo, um bloco de carnaval cheio, um show com ingressos esgotados – exigem de mim um grande esforço psicológico para, literalmente, não ter um colapso nervoso.
O que passava na minha cabeça era: vai ser muito difícil aproveitar a China sozinha.

Foto escancaradamente roubada do Tiago (I)
Ouvi muito falar do quão difícil é se virar por lá por causa da língua e que os chineses não são lá muito simpáticos além de, por mais globalizada que tenha se tornado, a China continua sendo a China: uma ditadura de um partido só, obcecado com poder e mandando muito mais no mundo do que nossos líderes ocidentais gostam de admitir (ou não, difícil saber).
Mas o país continuava na minha cabeça. Alguma coisa me dizendo que não dava para deixar essa oportunidade passar. Meu instinto estava para tanto que, na hora de comprar minha passagem, garanti uma parada em Hong Kong só por via das dúvidas.
Algumas semanas antes de eu partir, meu pai fez uma viagem a trabalho para Beijing – de supetão, repentina. Meu estado intrigado aumentou. Ele voltou a tempo de me contar sobre a Praça da Paz Celestial; a Cidade Proibida e a Muralha. Coisas que você lembra remotamente de estudar na escola e depois escuta falar como algo distante, longe do seu alcance.
E quem não gosta da ideia de conseguir coisas longe do seu alcance?
Bastaram algumas conversas no skype para descobrir que – nas palavras dele mesmo – tinha um amigo tão demente quanto eu, que topou na hora a aventura.

Foto escancaradamente roubada do Tiago (II)
A China não é um país fácil. Rola uma tensão meio constante, meio onipresente. Estranha, mas discreta.
Quando fui tirar o visto em Bangkok, criei um clima esquisito quando a primeira atendente da embaixada leu no meu formulário que eu era jornalista. Ficou repetindo toda hora “Espera aqui. Você vai ter que falar com meu chefe. Espera aqui.” (ela ficava apontando para uma cadeira e fazendo uma cara muito séria).
Fiquei uma bela meia hora “esperando aqui” na tal cadeira, o nervosismo aumentando, me condenando pela burrice de ter posto uma profissão que nunca exerci, só está lá no meu diploma.
Tá certo, tem países muito mais tensos e jornalistas muito mais corajosos. E eu estava lá como simples mochileira. Queria só descobrir qual era todo o auê com o gigante asiático. Quem sou eu para falar qualquer coisa de danoso para o governo chinês?
Percebi que num país como a China, isso não faz nenhuma diferença. Não há espaço para o duvidoso. Tive uma pontinha – bem “inha” – da sensação do que é não ter liberdade. Já não gostei. Acho que foram aí que começaram meus problemas com os chineses. Conto mais disso depois.
No fim, fugi da moça da embaixada assim que deu. Voltei no dia seguinte com um formulário que constava que eu era “desocupada/do lar”. Consegui meu visto em 24 horas e fui encontrar o Tiago em Beijing pouco menos de um mês depois do incidente.
Nesse meio tempo, li um livro que lembrava que “China was an empire when Europeans were still scavenging for roots and berries” (“A China já era um império quando os europeus ainda cavavam o solo atrás de raízes e frutas”).
Embarquei para a China com respeito: eu era apenas uma formiguinha testemunhando um gigante forte e resistente ao tempo em pleno vapor.
Foi exatamente isso que encontrei.













































































