shokran, egito
Friday, November 2nd, 2012Então o esquema vai ser o seguinte: vou contar o que der, na ordem que vier e do jeito que sair. Porque, depois de tudo, o que me resta de inspiração é sentimental e não muito descritiva, emotiva e bem pouco narrativa. Bagunçado, misturado e nada linear.
Tanto assim que vou começar pelo Egito, um país tão intenso, contraditório e rico como sua história.

Vi um país decadente e um povo esperançoso num momento de grande incerteza. Vi tolerância esforçada e intolerância velada. Vi uma África que não carrega a mágoa de ser ex-colônia, mas alimenta o ressentimento de ter sido abusada e roubada. O orgulho ferido de Impérios caídos.
O egípcio não me parece ter esquecido de quem já foi para o mundo – exige reconhecimento. Mas sabe que é um tempo passado. Que o presente é duro e desordenado; indefinido e pior. Vaidade e receio vivendo num mesmo coração, expressados em faces contidas.

Mas isso são meras impressões – superficiais e ralas – e é só isso mesmo que posso oferecer.
Não me senti bem no Egito. Fiquei à mercê de tours, guias, hotéis e ambulantes. Não tive nem vontade de sair do circuito clichê. Algo sobre ir a qualquer lugar e só me deparar com homens me deixou inquieta. Algo sobre ser atéia num país tão marcado por religiosidades – sejam históricas ou vigentes – me deixou oprimida.
Achei que Moçambique tinha me treinado a ser gringa em qualquer lugar; achei que a Turquia tinha me deixado mais à vontade entre burkas e hijabs, mas o Egito me despiu.

Fez-me refletir sobre tudo em que acredito. Relembrou-me da instabilidade humana e do incessante movimento civilizatório que atropela quem ousar querer ficar parado no tempo.

Mesmo assim, é impossível não se emocionar com a beleza egípcia. O orgulho do povo tem fundamento. A energia dos templos é imponente. Tem que ir para entender, para sentir, para descobrir… tem que ir.



Saí do Egito humilde. Mais introspectiva e menos espaçosa. Levo comigo a tranquilidade renovada que talvez só um banho no Nilo pode te proporcionar; a certeza do que preciso para viver e o que espero de uma sociedade.
Levo paz.

Para quem quiser ir:
- Agora é a hora! Segundo um cara da NatGeo, o turismo no país diminuiu 95% após a Primavera Árabe. Isso significa preços mais baratos, um povo mais receptivo e, frequentemente, momentos exclusivos em pontos turísticos impressionantes. Infelizmente, a instabilidade parece que achou o aconchego no Egito. Pesquise bem a situação por lá antes de ir, os alertas do World Nomads são uma boa fonte para viajantes.
- Mas… vale tomar cuidado. O Egito era o único país “tenso” para mulheres no meu roteiro. Praticamente todo mundo que consultei e absolutamente todos os guias que li não recomendavam que mulheres viajassem desacompanhadas sequer no Cairo. Resolvi não inventar moda e fui de excursão – tudo maravilhosamente arranjado pela Bugio Viagens: foi um grupo pequeno, com um guia ótimo e super aberto a falar com sinceridade sobre o país e o islamismo (isso fez toda a diferença para o tour, sobretudo porque chegamos no dia seguinte à divulgação dos resultados das eleições e tínhamos muuuuuuitas perguntas!).
- Voei de Istanbul para o Cairo de Turkish Airlines que decepcionou um pouco nos quesitos conforto e pontualidade. Também vale dizer que foi a única linha aérea que não computou minhas milhas automaticamente (dei bobeira e, na hora de exigir as milhas, mandei meu cartão de embarque por correio normal e o comprovante se perdeu). Dentro do Egito, peguei dois vôos da Egypt Air e achei excelente (aviões Embraer ♥).
- Fiz Cairo > Luxor > Aswan. Deixei Alexandria e as praias do Mar Vermelho de fora, devido ao custo – meu orçamento era de mochileira, né?! E ainda tinha mais da metade do mundo pela frente. Ouvi de várias pessoas que vale a ida.
- No Cairo, fiquei no Mercure Le Sphinx (que, na verdade, fica em Giza) por um preço super acessível, fugindo totalmente do padrão da minha viagem.
- Nenhuma proteção solar é exagero – vale tudo. Passei mal no meu último dia no Cairo e tenho quase certeza que foi insolação. Acho que uma em cada três pessoas que conheço e que já foi ao Egito teve o mesmo problema.
- Independente do seu roteiro, não pode – mesmo! – deixar o Templo de Luxor e o Templo de Karnak de fora.
























